NEURÓBICA COMBATE DOENÇA DE ALZHEIMER


A doença de Alzheimer (AD) é caracterizada por uma desordem neurodegenerativa, crónica e pro-gressiva, marcada pela perda selectiva e simétrica de neurónios motores, sensórios e do sistema cognitivo. O seu desenvolvimento parece ser um reflexo da actuação de múltiplos factores do meio ambiente.
Embora os factores genéticos e ambientais que iniciam o processo neurodegenerativo possam diferir entre doenças, evidências consideráveis sugerem que são alterações comuns que levam à morte neuronal.
As alterações mais proeminentes são: aumento do stress oxidativo envolvendo radicais de oxigênio contribuindo com o dano a proteínas, lipídeos e ácido nucléico; dano a habilidade do neurónio em regular a homeostasia iónica resultando num aumento aberrante do nível de cálcio intracelular; dano ao metabolismo energético, que provavelmente resulta de uma disfunção mitocondrial e contribui para sua geração e activação de uma cascata de interacções moleculares chamada apoptose que envolve proteínas como Par-4, membros da família de Bcl-2 e caspases.
Na doença de Alzheimer a cascata neurodegenerativa pode ser iniciada pelo processo de envelhecimento ou por mutações genéticas específicas na APP, preselina-1 ou preselina-2. Em cada caso existe um aumento da produção e deposição extracelular de um peptídeo proteolítico neurotóxico, produto da APP, chamado de peptídeo b -amilóide (A b). Esse peptídeo promove citotoxicidade e apoptose do neurónio por um mecanismo que envolve peroxidação dos lipídeos de membrana e promoção de danos a ATPases e transportadores de glicose e glutamato.
Diante dos mecanismos que acreditamos desencadear a doença existe a tentativa de evitar seu aparecimento, retardá-lo ou pelo menos minimizar os danos provocados pelo desenvolvimento da demência. Na busca pelo sucesso dessas tentativas, vários grupos de pesquisadores têm demonstrado que algumas medidas simples como exercício físico e uma dieta alimentar com baixa ingestão calórica são capazes de retardar o aparecimento de sintomas da doença, sua progressão ou quem sabe, de certa forma, até mesmo evitá-la.
Não é novidade que exercícios fazem bem para saúde física e mental. A actividade física, no entanto, é capaz de ir além da promoção de bem estar. Têm sido observados efeitos protectores para o desenvolvimento de demências, entre elas a doença de Alzheimer.
Um estudo de caso-controle mostrou a relação de protecção de actividades físicas no desenvolvimento da demência, foram observados também que actividades passivas e intelectuais, principalmente esta última, tem uma forte associação actuando como factor de protecção para o desenvolvimento precoce de demência.
O estudo leva em consideração a diversidade de actividades desenvolvidas pelos sujeitos da pesquisa assim como a intensidade com que foram praticadas. Os dados mostram que o grupo controle desenvolveu maior diversidade de actividades físicas durante a vida adulta nas duas fases consideradas (dos 20 aos 30 anos e dos 40 aos 50 anos de idade), com maior intensidade que o grupo de casos, a média de actividades intelectuais também foi maior entre o grupo controle na fase adulta tardia. No entanto, os dados sobre as actividades passivas, que diz respeito às actividades quotidianas, não tiveram significância estatística.
Para evitar que a redução de actividades no grupo de casos ocorresse em função da apresentação sub-clínica da doença, ou seja, no período de pré-morbidade não foram colectados dados referentes aos 5 anos que antecederam o início da demência.
Os resultados desse estudo indicam que pacientes com AD foram menos activos na meia idade, em relação a actividades passivas, intelectuais e físicas se comparados ao grupo-controle. A razão de prevalências mostra que: pessoas que foram, relativamente, inactivas para essas actividades tem um aumento de 250% do risco de desenvolver a doença.
As contribuições da actividade física podem ser resumidas em perda de peso, introdução de dieta adequada (aumento do consumo de antioxidantes e diminuição da ingestão de gorduras), além do condicionamento do sistema cardiovascular.
Aliada à prática de exercícios a introdução de uma dieta adequada também demonstrou efeitos protectores sobre o sistema nervoso central. Uma dieta restrictiva (baixa ingestão de calorias) pode aumentar a resistência de neurónios a disfunção e morte em modelos experimentais das doenças de Alzheimer, Parkinson e Huntington. O mecanismo subjacente do efeito benéfico da restrição da dieta envolve a estimulação de proteínas de stress e fatores neurotróficos .
Esses factores induzidos pela dieta restrita podem proteger os neurônios induzindo a produção de proteínas que suprimem a produção de radicais oxidantes, atuando na homeostasia do cálcio intracelular e inibindo a cascata bioquímica da apoptose.
A limitação da dieta, de forma interessante, também aumenta o número de células nervosas geradas de novo no cérebro adulto, sugerindo que a manipulação da dieta pode aumentar a plasticidade e a auto-reparação cerebral. Viu-se que tanto a actividade física quanto a mental são capazes de aumentar, semelhantemente, a produção de fatores neurotróficos e a neuro-gênese.
Outros dados relacionam a dieta restricta e as actividades físicas e mentais com a redução da incidência e severidade da desordem neurodegenerativa em humanos.
Mais uma vez os estudos apontam para uma condução de vida saudável, actividade física regular e boa alimentação, uma receita simples e velha conhecida de todos nós.

Danielle Martins Rocha, Faculdade de Medicina, Centro de Ciências da Saúde, UFRJ, Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Brasil. Fonte: revista Ciência & Cognição